O que é inclusão?
É a nossa capacidade de entender e reconhecer o outro e, assim, ter o privilégio de conviver e compartilhar com pessoas diferentes de nós. A educação inclusiva acolhe todas as pessoas, sem exceção. É para o estudante com deficiência física, para os que têm comprometimento mental, para os superdotados, para todas as minorias e para a criança que é discriminada por qualquer outro motivo. Costumo dizer que estar junto é se aglomerar no cinema, no ônibus e até na sala de aula com pessoas que não conhecemos. Já inclusão é estar com, é interagir com o outro.
O que faz uma escola ser inclusiva?
Em primeiro lugar, um bom projeto pedagógico, que começa pela reflexão. Diferentemente do que muitos possam pensar, inclusão é mais do que ter rampas e banheiros adaptados. A equipe da escola inclusiva deve discutir o motivo de tanta repetência e indisciplina, de os professores não darem conta do recado e de os pais não participarem. Um bom projeto valoriza a cultura, a história e as experiências anteriores da turma. As práticas pedagógicas também precisam ser revistas. Como as atividades são selecionadas e planejadas para que todos aprendam? Atualmente, muitas escolas diversificam o programa, mas esperam que no fim das contas todos tenham os mesmos resultados. Os alunos precisam de liberdade para aprender do seu modo, de acordo com as suas condições.
E isso vale para os estudantes com deficiência ou não.
(Trecho da entrevista com Maria Teresa Égler Mantoan a Revista Nova Escola – Meire Cavalcante- Edição182 / Maio – 2005)
(Trecho da entrevista com Maria Teresa Égler Mantoan a Revista Nova Escola – Meire Cavalcante- Edição182 / Maio – 2005)
No ano seguinte a essa entrevista, Felipe chegou no Colégio Estadual Ramiro Braga. Veio fazer parte de minha turma de alfabetização e, sendo menino cego, ensinou-me a enxergar as suas e as minhas possibilidades. Sua coragem e determinação foram preponderantes no sucesso do processo pelo qual passamos todos nós da comunidade escolar. Uma experiência de inclusão vivida por nossos alunos do curso de formação de professores, que adoravam estagiar em nossa sala de aula. Dia desses, encontrei uma aluna no ônibus, que não sabia que eu havia sido a professora que o alfabetizara. Fiquei feliz com a empolgação dela falando como ele é, como age frente às situações de aprendizagem. Pude ver o brilho em seus olhos de futura professora e multiplicadora da experiência de incluir. Hoje, Felipe cursa o sexto ano do Ensino Fundamental da mesma escola, sempre participante e com muito bom aproveitamento. Cada professor vai lidando com a experiência de tê-lo em sua turma, de acordo com sua maneira de ver a deficiência e suas concepções de inclusão, mas todos reconhecem a capacidade, a competência e a determinação que lhe são características. A composição da turma inicial foi mudando a cada ano, permitindo a todos, que chegam ou que vão, conhecer um vocabulário próprio de alguns materiais de um aluno cego, como ele os utiliza e, principalmente, saber que a deficiência não o incapacita, apenas exige algumas mudanças na forma de apropriação do conhecimento.
Lembro-me bem dos alunos, pequenos ainda, querendo utilizar a reglete e a tela de desenho do colega Felipe. Justamente naquela fase inicial em que o aluno ainda vivia o luto da perda da visão, surgia a oportunidade dele "dar aulas" de braille para os coleguinhas e, em troca, "receber aulas" de escrita a tinta. A tela, em dados momentos era trocada com algum colega, que se realizava fazendo o desenho como ele. Era a vez de algum coleguinha ajudá-lo a desenhar o que queria, segurando em sua mão. Momentos de ser criança, de compartilhar, de trocar, de aprender.
Hoje, muito do que aprendi com Felipe, utilizo na Sala de Recursos com Lorrana, procurando promover a inclusão de mais uma criança cega. Ela está conhecendo o Sistema Dosvox e aprendendo a utilizar algumas de suas opções. Procuro caminhar com ela pela escola, não somente pela questão da mobilidade, mas procurando estimular conversas e brincadeiras com outras crianças, independente de idade. Ela adora abraçar e beijar as coleguinhas. E eu adoro vê-la interagindo, sendo feliz.
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